Engenharia Química · Balanços de Energia · Processos

Você escolhe o zero. A diferença, não.

Ninguém nunca mediu a energia de nada. Não existe instrumento que devolva a entalpia de um quilo de vapor — existem instrumentos que medem diferenças, e a primeira lei só fala de diferenças. Isso parece um defeito e é a maior vantagem prática do capítulo: como o zero da escala é arbitrário, você escolhe onde pôr o zero, e escolhe pensando em quantos termos aquilo vai apagar da sua conta. Depois monta um caminho hipotético entre o estado real e esse zero — passando por onde for conveniente, porque a entalpia não se lembra do caminho. Esta aula é sobre essas duas liberdades, e sobre o preço de usá-las mal.

6 → 1termos que sobram num trocador de calor
75%da carga de uma caldeira é só mudança de fase
Q = ΔHa equação que resolve metade da indústria
0/24seu placar nas quatro baterias

01 · a equação geral

Seis termos, e o trocador de calor mata cinco

O balanço de massa tinha cinco termos, e o curso inteiro era cortar quatro. O de energia tem seis, e a lógica é a mesma — com uma diferença que simplifica tudo: energia não tem termo de geração. Nem com reação química. O que a reação faz é mudar a forma da energia, de ligação química para térmica, e isso aparece na entalpia das espécies, não num termo novo. Sobram o acúmulo, o transporte pelas correntes, a energia cinética, a potencial, o calor e o trabalho de eixo. Monte um caso ao lado e veja quais sobrevivem.

A combinação que derruba mais gente. Alterne entre fechado e aberto em regime permanente mantendo tudo o mais igual. A conta passa de Q = ΔU para Q = ΔH — e a diferença entre as duas é o termo pV̂, que é exatamente o trabalho de escoamento: o empurrão que a massa de trás dá na massa da frente para fazê-la atravessar a fronteira. É trabalho, mas não é trabalho de eixo, e por isso não entra em Ws. Ele mora dentro da entalpia. Foi para não ter de escrevê-lo toda vez que alguém definiu H ≡ U + pV.

Û, Ĥ e o zero que muda de lugar quando entra reação

São três moedas, e trocar uma pela outra no meio da conta é o erro de assinatura mais reconhecível desta matéria. A escolha não é de gosto: ela é decidida pela fronteira, exatamente como no balanço de massa.

Escolher o estado de referência

No balanço de massa, a primeira decisão administrativa era a base de cálculo. Aqui é o estado de referência: a temperatura, a pressão e a fase em que você declara, por decreto, que Ĥ = 0. Como só diferenças de entalpia sobrevivem no resultado, a escolha nunca muda a resposta — muda só o tamanho do trabalho que você vai ter.

Quando a tabela manda

Se você vai usar tabelas de vapor, o zero já está escolhido: água líquida saturada a 0,01 °C. Se vai usar entalpias de formação, o zero são os elementos puros a 25 °C e 1 atm. Misturar as duas origens na mesma soma produz um erro de milhares de kJ por quilo, sem nenhum sinal de alerta.

Quando a escolha é sua

Escolha o estado de entrada do processo. Todos os Ĥ da alimentação viram zero de uma vez, metade da tabela de entalpias fica preenchida com zeros, e você só calcula o que de fato muda. É de graça — e é o que um engenheiro experiente faz antes de escrever a primeira linha.

O estado de referência precisa incluir a fase. “Referência: 25 °C” não é um estado de referência: água líquida a 25 °C e vapor d'água a 25 °C diferem em 2442 kJ/kg. Um estado é T, P e fase — e, em mistura reativa, é preciso dizer ainda quais espécies recebem o zero: as moléculas, ou os elementos que as compõem.

02 · estado de referência

Mude o zero e olhe o que não muda

Aqui está uma corrente de água entrando num equipamento num estado e saindo em outro. Ao lado, o estado de referência é seu para escolher. Troque-o e observe as duas colunas: Ĥentra e Ĥsai mudam completamente — chegam a trocar de sinal — e a coluna ΔĤ não se mexe um dígito. É esse fato, e só ele, que autoriza a liberdade toda deste capítulo.

O caminho, em diagrama T–Ĥ

temperatura contra entalpia acumulada da corrente

Três zeros, três tabelas de entalpia, uma só resposta. A última coluna é o calor que o equipamento precisa trocar por quilo de corrente. Ela é a mesma nas três linhas porque Ĥ só aparece no balanço dentro de uma subtração — e a constante arbitrária que você escolheu se cancela nessa subtração, sempre.

O caminho hipotético: por onde a conta anda

Entalpia é função de estado: a diferença entre dois estados não depende do caminho percorrido entre eles. Isso é uma licença para inventar o caminho mais barato de calcular, mesmo que ele seja fisicamente impossível de percorrer. Aquecer líquido a pressão constante até a ebulição, vaporizar tudo ali e depois superaquecer o vapor é um caminho; dentro do equipamento real, líquido e vapor coexistem e a coisa acontece em outra ordem. Tanto faz.

A regra que evita metade dos erros. Um caminho hipotético legítimo só usa trechos para os quais você tem número: calor sensível a pressão constante (precisa de Cp), mudança de fase na temperatura tabelada (precisa de ΔĤv ou ΔĤm naquela temperatura), mistura ou dissolução a 25 °C (precisa de ΔĤsol), reação a 25 °C (precisa de ΔĤr°). Se um trecho do seu caminho não tem tabela, o caminho está errado — não a física.

O procedimento que nunca falha

Sete passos, e os dois primeiros são o motivo de tanta gente travar: o balanço de energia vem depois do balanço de massa, sempre. Sem as vazões de todas as correntes, não há o que multiplicar pela entalpia.

03 · uma unidade, sem reação

Três trocadores, três perguntas diferentes

Um pré-aquecedor, um trocador casco-e-tubo e uma caldeira. Nos três a fronteira é óbvia e o balanço é Q = ΔH. O que muda é a pergunta: no primeiro, quanto vale Cp quando ele não é constante; no segundo, qual é a área de troca que o serviço exige; no terceiro, para onde vai o dinheiro. Mexa nos números — a página refaz a conta inteira, passos escritos incluídos.

Exercício 1 · Pré-aquecedor de ar de combustão

Ar ambiente é aquecido antes de entrar num forno, aproveitando o calor dos gases de chaminé. Um problema de calor sensível puro — e a primeira oportunidade de errar por 5% usando Cp como se fosse constante.

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Cp não é uma constante

capacidade calorífica do ar contra temperatura, e a média da faixa

Por que sobe. Aquecer um gás diatômico a baixa temperatura só alimenta translação e rotação. A partir de algumas centenas de graus, os modos de vibração das ligações começam a absorver energia também, e cada modo novo que “liga” aumenta o quanto de calor cabe em cada grau. É por isso que Cp de gás cresce com T, e por isso que o polinômio tem três termos além da constante.
Quando dá para usar Cp constante. Em faixas estreitas — digamos, menos de 100 °C — o erro de usar o valor médio fica abaixo de meio por cento e ninguém se importa. O painel mostra os dois números lado a lado: aumente a temperatura de saída e veja o erro crescer. A regra prática é usar Cp avaliado na média aritmética das duas temperaturas, que já é muito melhor do que usar o valor a 25 °C.
Por que pré-aquecer. Cada grau que o ar entra mais quente é um grau que o combustível não precisa fornecer. Um pré-aquecedor que leva o ar de 25 a 300 °C corta tipicamente entre 10% e 15% do consumo de gás de um forno — e o calor usado veio da chaminé, que ia para a atmosfera de qualquer jeito. É integração energética em sua forma mais simples, e é o tema da seção 08.

Exercício 2 · Trocador casco-e-tubo em contracorrente

Um óleo quente de processo é resfriado com água de torre. O balanço de energia dá o serviço térmico e a temperatura de saída da água; a área de troca — que é o equipamento, o aço e o preço — sai de uma equação a mais, e de uma média que não é a aritmética.

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Contracorrente contra paralelo

perfis de temperatura ao longo do trocador

A mesma carga, áreas diferentes. Os dois arranjos trocam exatamente o mesmo calor — o balanço de energia não sabe distinguir um do outro. O que muda é a força motriz: em paralelo as duas correntes convergem para a mesma temperatura e o ΔT despenca no fim do equipamento, exigindo mais área para a mesma carga. Em contracorrente, a saída fria encontra a entrada quente, e o ΔT se mantém.
Cruzamento de temperatura. Em paralelo, a corrente fria nunca pode sair mais quente que a quente — as duas se encontram no meio e param. Em contracorrente, pode: a água pode sair a 80 °C enquanto o óleo sai a 60 °C, e isso não viola nada, porque em cada ponto do trocador o calor continua indo do mais quente para o mais frio. Suba a vazão de óleo no painel até forçar o cruzamento e veja o que acontece com o arranjo em paralelo.
A área não vem do balanço de energia. Q = U·A·ΔTml é uma equação de transferência de calor, não de conservação. O balanço entrega Q e as temperaturas; a taxa com que esse Q atravessa a parede é outra disciplina — e é ela que transforma a sua resposta em um pedido de compra.

Exercício 3 · Caldeira — onde mora a conta

Água de alimentação entra morna e sai como vapor saturado. Duas etapas no mesmo equipamento: aquecer até a saturação e vaporizar. Elas parecem comparáveis. Não são — e a diferença entre as duas explica por que a indústria trata condensado como um ativo.

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Calor latente: o atalho mais rentável do capítulo — o equivalente energético do componente amarrado do balanço de massa. Onde há mudança de fase, ela quase sempre domina a conta, e o calor sensível vira correção. Consequências diretas: devolver condensado quente à caldeira recupera o sensível mas nunca o latente; um evaporador de múltiplo efeito existe para usar o mesmo latente três ou quatro vezes; e o refrigerante de um chiller é escolhido pela entalpia de vaporização na temperatura certa, não pela capacidade calorífica.

04 · trabalho de eixo

Os termos que a seção 01 cortou voltam aqui

Num trocador de calor, Ws, ΔEc e ΔEp morrem e ninguém sente falta. Numa bomba e num compressor eles são o assunto — e a surpresa é que, mesmo aqui, o termo cinético continua sendo ruído. Estes dois exercícios existem para calibrar sua intuição sobre a ordem de grandeza de cada termo, que é a habilidade que separa quem corta um termo com segurança de quem corta por hábito.

Exercício 4 · Bomba centrífuga

Água é recalcada de um tanque atmosférico para um vaso pressurizado, mais alto, através de uma linha com perda de carga. Quatro termos disputam a conta, e um deles ganha por duas ordens de grandeza.

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Para onde vai o que a bomba desperdiça. Com rendimento de 65%, mais de um terço da potência do motor não vira pressão — vira calor, dentro do líquido e nos mancais. Isso não some do balanço de energia: aparece como um aquecimento pequeno e real da corrente. Uma bomba centrífuga operando com a descarga fechada aquece a água que está presa nela e pode chegar à ebulição em poucos minutos. É um balanço de energia de sistema fechado com W ≠ 0 e Q ≈ 0 — a experiência de Joule, sem querer, dentro da sua planta.

Exercício 5 · Compressor de ar

Comprimir gás é a operação mais cara de energia da maioria das plantas, e a única em que a temperatura de descarga, e não a potência, costuma decidir o projeto. É também onde o caminho volta a importar: o mesmo estado final custa potências diferentes conforme o gás seja resfriado durante a compressão ou não.

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Por que ninguém comprime de uma vez só

potência de eixo e temperatura de descarga contra o número de estágios

O resfriamento intermediário paga duas contas. A potência cai porque comprimir gás frio custa menos — ele ocupa menos volume, e o trabalho é a integral de V·dp. E a temperatura de descarga cai porque cada estágio parte de novo dos 25 °C. O limite prático de descarga de um compressor lubrificado fica em torno de 150 a 180 °C: acima disso o óleo se degrada e, em ar comprimido, há risco de ignição do depósito carbonizado.
Compressão não é um problema de calor, é um problema de caminho. Adiabática reversível e isotérmica reversível levam o gás do mesmo estado inicial à mesma pressão final — com trabalhos diferentes, porque os estados finais são diferentes (temperaturas diferentes). O trabalho não é função de estado; a entalpia é. Por isso o balanço de energia de um compressor adiabático é simplesmente Ws = −ΔH, e toda a dificuldade se muda para descobrir qual é o estado de saída.
Rendimento isentrópico. O compressor real entrega o gás mais quente que o ideal, na mesma pressão de descarga. A definição usada aqui é a padrão: η = ΔHideal / ΔHreal, com o processo ideal sendo adiabático e reversível. Um compressor real de ar fica entre 0,72 e 0,85; abaixo disso, desconfie de folga interna ou de válvula passando.

05 · a utilidade

Vapor: a moeda térmica da planta

Quase todo calor de processo do mundo é entregue por vapor d'água condensando. A razão é uma lista curta de vantagens que nenhum outro fluido reúne: entalpia de vaporização enorme por quilo, temperatura fixada pela pressão — o que faz do vapor um termostato automático —, coeficiente de troca altíssimo na condensação, atóxico e barato. Escolher a pressão do vapor é uma decisão de engenharia com duas faces opostas, e a tabela abaixo é calculada, não decorada.

A linha de saturação

temperatura de saturação e entalpia de vaporização contra pressão

Leia as duas últimas colunas juntas. Subir a pressão compra temperatura — e é isso que você precisa quando o processo pede 180 °C. Mas cada quilo de vapor de alta carrega menos calor latente, porque parte da entalpia já foi gasta para chegar à temperatura de saturação. Vapor de 60 bar entrega 30% menos calor latente por quilo que vapor de 1 bar. Compre a pressão mínima que o serviço exige, nunca a máxima disponível.

Condensado é água tratada e quente — e é dinheiro. Quem descarta condensado joga fora o calor sensível que já estava pago e a água desmineralizada, que custa caro por si. Uma planta com boa recuperação devolve 70% a 90% do condensado à caldeira. O detalhe operacional: ao despressurizar condensado a 10 bar e 180 °C para um tanque a 1 bar, parte dele vaporiza instantaneamente — o vapor de reevaporação. A fração que vaporiza sai de um balanço de energia adiabático de uma linha, e está calculada no painel.

06 · sistemas reativos

Com reação, o zero muda de lugar

Enquanto não há reação, cada espécie pode ter o seu próprio zero — ninguém se transforma em ninguém, e as constantes arbitrárias se cancelam espécie por espécie. Com reação isso acaba: metano vira gás carbônico, e se os dois tiverem zeros escolhidos independentemente, a diferença entre eles é um número inventado. A solução é uma só, e é uma convenção global: o zero passa a ser os elementos puros, a 25 °C e 1 atm. A partir dela, a entalpia de qualquer substância é a sua entalpia de formação, e a energia liberada por uma reação vira uma subtração.

Exercício 6 · Reator de desidrogenação de propano

É o reator do exercício 8 da página de balanço de massa, agora com a pergunta de energia: C3H8 → C3H6 + H2 quebra uma ligação C–H e não forma nada que compense — é endotérmica, e fortemente. Mantê-lo isotérmico exige um forno.

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Por que o reator industrial é adiabático e em vários leitos. Manter 600 °C e fornecer 124 kJ por mol reagido dentro do mesmo vaso é dificílimo: a troca térmica através da parede de um leito catalítico é ruim. A solução real é deixar o leito rodar adiabático — a temperatura cai ao longo dele, porque a reação suga calor — e reaquecer a mistura num forno entre um leito e o outro. Baixe a temperatura de saída no painel e veja o que acontece com a carga do forno: os dois termos, reação e sensível, se somam.

Exercício 7 · Oxidação do eteno — quando o calor é o perigo

O reator do exercício 9 da página de massa. Duas reações competem sobre o mesmo catalisador de prata: a que você quer, C2H4 + ½ O2 → C2H4O, e a que você não quer, a combustão completa até CO2. As duas são exotérmicas. Só que uma libera doze vezes mais calor que a outra por mol de eteno, e é justamente a indesejada.

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O que acontece se a refrigeração falhar

temperatura adiabática de saída contra a quantidade de inerte na carga

O inerte como apólice de seguro. Gás que não reage ainda assim absorve calor: ele entra no somatório Σ n·Cp do lado dos produtos e derruba a temperatura final. Por isso reatores de oxidação parcial operam com diluição alta de nitrogênio ou metano — o custo é comprimir e reciclar gás inútil, e o benefício é que uma falha de refrigeração termina num susto em vez de terminar numa investigação.
Seletividade não é só uma questão de rendimento. Cada ponto percentual que migra da reação boa para a combustão multiplica por doze o calor gerado naquele mol. Um catalisador que envelhece e perde seletividade não devolve apenas menos produto: ele devolve mais calor, num reator cujo trocador foi dimensionado para a seletividade nova. Baixe a seletividade no painel e acompanhe a carga térmica — ela sobe mesmo com a conversão parada no mesmo valor.
Onde a analogia com o balanço de massa termina. Massa não tem termo de geração, e por isso um erro de massa não se auto-amplifica. Energia não tem geração tampouco — mas a taxa da reação depende exponencialmente da temperatura, que depende do calor liberado, que depende da taxa. Essa realimentação é o que chamamos de disparo térmico, e ela é invisível num balanço em regime permanente como este. O que este painel mostra é apenas o destino, não a velocidade com que ele chega.

07 · combustão

A chama tem um teto, e ele é calculável

Queimar é a maneira mais comum de pôr energia num processo, e o balanço de energia de um forno responde às duas perguntas que a operação faz todo dia: quanto combustível para uma dada carga, e quão quente a chama fica. A segunda tem uma resposta limite bonita — a temperatura adiabática de chama, que é o que se obteria se absolutamente todo o calor liberado ficasse nos próprios produtos. Nenhuma fornalha chega lá. Mas é esse número que decide o material do refratário e a formação de NOx.

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Excesso de ar: o preço térmico

temperatura adiabática de chama contra excesso de ar

Duas pressões opostas. Pouco ar deixa combustível sem queimar e produz CO — perda direta de energia e um gás tóxico. Muito ar aquece nitrogênio de graça e o manda pela chaminé ainda quente, além de derrubar a temperatura da chama abaixo do que o processo precisa. O ponto ótimo de uma caldeira industrial a gás fica entre 5% e 15% de excesso, e é controlado medindo O2 na chaminé — nunca ajustando a válvula “no olho”.
Onde este modelo quebra, e ele quebra. Acima de cerca de 1500 °C as moléculas começam a se dissociar: CO2 se parte em CO e O2, H2O em H2 e OH. Dissociar consome energia, então a temperatura real fica abaixo da calculada — tipicamente 100 a 200 °C abaixo, no caso estequiométrico. Os polinômios de Cp usados aqui também estão extrapolados nessa faixa. O número desta página é um teto teórico, e é assim que ele deve ser lido.
PCS e PCI, e por que a diferença é exatamente a água. Poder calorífico superior é medido em bomba calorimétrica, onde a água dos produtos condensa e devolve seu calor latente. Poder calorífico inferior supõe a água saindo como vapor — que é o que acontece numa chaminé real acima de 100 °C. A diferença entre os dois é nH₂O · 44,0 kJ/mol, e nada mais. Para metano isso dá 11% da energia do combustível: a razão pela qual caldeiras de condensação existem e conseguem “ultrapassar 100% de rendimento” quando o rendimento é declarado sobre o PCI.

Combustíveis por mol e por quilo são conversas diferentes. Hidrogênio tem o pior poder calorífico por mol da lista e, de longe, o melhor por quilo — o que decide quando o combustível é carregado (foguetes, veículos) e é irrelevante quando ele chega por tubulação. Já por metro cúbico normal, o hidrogênio é o pior da tabela, e é por isso que a conversão de uma rede de gás natural para hidrogênio não é troca de molécula: é troca de diâmetro de tubulação.

08 · integração energética

A meta existe antes do projeto

Uma planta tem correntes que precisam ser aquecidas e correntes que precisam ser resfriadas. O instinto é casá-las uma a uma, no fluxograma, à mão. A análise pinch faz o contrário e é uma das ideias mais elegantes da engenharia química: antes de desenhar um único trocador, ela calcula o mínimo termodinamicamente possível de utilidade quente e fria para aquele conjunto de correntes. Você passa a ter uma meta — e a saber, ao terminar o projeto, o quanto ainda está deixando na mesa.

Curvas compostas

todas as correntes quentes e todas as frias, somadas em uma curva cada

As correntes do processo. m·Cp é a capacidade calorífica da corrente inteira, em kW por grau — é ela, e não a vazão, que governa a inclinação de cada trecho das curvas compostas. Edite os valores no painel e veja as metas se moverem.

A cascata: de onde saem os números

O algoritmo cabe numa tabela. Desloque todas as temperaturas quentes para baixo e todas as frias para cima, meio ΔTmín cada — assim, qualquer troca na escala deslocada já está automaticamente respeitando a aproximação mínima. Depois basta deixar o calor cair de intervalo em intervalo.

Leia a coluna da direita. Ela é a cascata depois de corrigida: o quanto de calor atravessa cada fronteira de intervalo, vindo de cima. O valor mais negativo da cascata sem correção é exatamente o quanto de utilidade quente falta no topo — some esse valor e nenhuma fronteira fica negativa. O ponto onde a cascata corrigida chega a zero é o pinch: por ali não passa calor, e é essa a restrição que divide o problema em dois.

Energia contra área

metas de utilidade contra a aproximação mínima adotada

Escolher ΔTmín é escolher o ponto de um balanço econômico. Apertar a aproximação recupera mais calor e corta utilidade — e, como Q = U·A·ΔTml, exige área de troca que cresce sem limite quando ΔTmín tende a zero. Valores usuais: 10 °C em líquidos de processo, 20 a 40 °C quando há gases, 3 a 5 °C em processos criogênicos, onde o frio é caríssimo e a área compensa.
As três regras de ouro do pinch. Não transferir calor através do pinch; não usar utilidade quente abaixo dele; não usar utilidade fria acima. Violar qualquer uma acrescenta exatamente a mesma quantidade nas duas utilidades ao mesmo tempo — um quilowatt atravessando o pinch custa um quilowatt de vapor a mais e um quilowatt de água de resfriamento a mais. É o diagnóstico mais rápido de uma rede de trocadores mal projetada.
Por que isto não é um detalhe. A análise pinch nasceu no fim dos anos 1970 e, aplicada a plantas existentes, costuma encontrar de 20% a 30% de economia de energia com reformas modestas de tubulação. Ela não substitui o balanço de energia: ela é o balanço de energia usado como ferramenta de projeto, olhando todas as correntes de uma vez em vez de equipamento por equipamento.

09 · onde o método falha

Oito maneiras de errar um balanço de energia

Como no balanço de massa, o erro típico fecha: a conta soma, o número sai, a ordem de grandeza parece plausível e nada denuncia o problema. Cada uma das oito abaixo tem uma assinatura reconhecível — e sete delas têm origem em unidades ou em estado de referência, não em física.

E os limites do próprio modelo

Tudo nesta página supôs regime permanente, gás ideal, mistura ideal, pressão sem efeito sobre a entalpia e nenhuma perda para o ambiente. São hipóteses — e vale saber exatamente onde cada uma se rompe.

10 · treino

Vinte e quatro decisões

Quatro baterias, na ordem da página. Cada alternativa errada tem um diagnóstico: qual raciocínio específico leva até ela. Se errar, leia o diagnóstico da sua resposta antes de ler o da certa — a informação está ali.

acertos 0 de 0 respondidas · 24 no total

Bateria A · A primeira lei e o estado de referência

Quais termos sobram, Û contra Ĥ, o zero arbitrário e o caminho hipotético.

Bateria B · Calor sensível, latente e trabalho

Cp variável, mudança de fase, média logarítmica, bomba e compressor.

Bateria C · Vapor e reação

Escolha de pressão, condensado, entalpia de formação, calor de reação e reator adiabático.

Bateria D · Combustão e integração

PCS e PCI, excesso de ar, chama adiabática, pinch e as três regras de ouro.

11 · para ir adiante

De onde vem tudo isto

Os problemas desta página foram reescritos a partir dos arquétipos clássicos desses livros, com números próprios e resolução própria. Os dados termodinâmicos — capacidades caloríficas, entalpias de formação e de vaporização, tabela de vapor — vêm das tabelas padrão da literatura e estão listados no rodapé com sua precisão.