Engenharia Química · Revisão para o ENADE · Gases

A conta é uma só. O erro está em volta dela.

Quase toda questão de gás desta prova termina em PV = nRT ou numa correção dela, e essa conta quase ninguém erra. O que derruba é o que fica em volta: a temperatura que ficou em Celsius, a pressão que ficou manométrica, o R que não combina com as unidades. São erros de unidade. Quando a pressão sobe, o erro muda de natureza: a conta continua certa e quem deixa de valer é o modelo. Esta aula trata dos dois tipos de erro e do número que mede o segundo: o fator de compressibilidade Z.

8 → 9bar: a leitura do manômetro não é a pressão da equação
+27%e não +100%: vazão de gás aquecido de 100 a 200 °C
Z = 0,83GNV a 205 atm: o ideal erra a pressão em 20%
0/14seu placar nas duas baterias

01 · variáveis de estado

Converta antes de pensar

Quatro variáveis, P, V, T e n, descrevem completamente um gás ideal. Metade dos erros em gases é de unidade, e não de química. Por isso a regra é converter tudo antes de escrever a primeira equação. Digite um valor em qualquer unidade e veja as outras. A pressão tem uma chave a mais, porque é nela que mora a pegadinha mais cara da prova.

Pegadinha 1 · o manômetro mede diferença

O manômetro lê a pressão acima da atmosférica. PV = nRT precisa da pressão acima do vácuo absoluto. As siglas avisam: bar(g) e psig são manométricas; bar(a) e psia, absolutas. A régua abaixo acompanha o conversor de pressão acima.

A mesma pressão, medida a partir de dois zeros

Cilindro com o manômetro em zero não está vazio: ainda há gás a 1 atm lá dentro. E a pressão atmosférica local não é sempre 1 atm. Troque o valor no conversor para 92 kPa (cerca de 800 m de altitude) e veja a mesma leitura virar outra pressão absoluta.

“Normal” não é uma condição só

Uma vazão de gás sem T e P informadas não significa nada. Medidores e contratos declaram uma condição de referência, e há várias em uso. O volume molar de cada uma sai de Vm = RT/P. A tabela é calculada, não copiada.

Nm³ é, na prática, uma unidade de quantidade de matéria: 1 Nm³ ≈ 44,6 mol. Entre o Nm³ (0 °C) e o m³ a 20 °C há mais de 7% de diferença. A especificação brasileira do gás natural (ANP) usa 20 °C e 1 atm, então quem mistura as duas referências erra a fatura nessa proporção.

02 · equação geral dos gases

Com n constante, PV/T não muda

Para uma massa fixa de gás que passa de um estado a outro, P₁V₁/T₁ = P₂V₂/T₂. As unidades de P e V só precisam ser as mesmas dos dois lados, porque aparecem como razão. A temperatura precisa estar em kelvin, sempre, porque a proporcionalidade só existe na escala absoluta. Escolha a transformação, mude os números e veja o caminho no diagrama P–V.

Diagrama P–V

Por que kelvin: todas as retas passam pelo mesmo ponto

Volume de 1 mol de gás ideal contra a temperatura em Celsius, em três pressões. Cada reta, prolongada, zera o volume em −273,15 °C, qualquer que seja a pressão. É o zero absoluto, e é por isso que só em kelvin “dobrar T” dobra V. O trecho tracejado é extrapolação: gás real condensa muito antes.

Lei de Charles, prolongada até o zero absoluto

n = 1 mol · passe o cursor para ler os valores

Três casos que a banca adora

Um vaso rígido ao sol, uma vazão convertida para condição normal e uma pergunta de um minuto, sem calculadora.

Exemplo · cilindro de N₂ exposto ao sol

Exemplo · vazão em Nm³/h

Pare e responda · 1 minuto

Uma corrente gasosa é aquecida de 100 °C para 200 °C, a pressão constante, num trocador de calor. A vazão volumétrica dobra?

Ver a resposta comentada

03 · equação de Clapeyron

O R é escolhido pelas unidades, não pelo hábito

PV = nRT liga as quatro variáveis. A constante é uma só, 8,314 J·mol⁻¹·K⁻¹, escrita em unidades diferentes: 8,314 Pa·m³ é exatamente 8,314 J. Leia as unidades de P e V no enunciado e use o R que as contém. Nesta calculadora, a escolha das unidades é a escolha do R.

Resolva para qualquer variável

Se você errar a unidade

O mesmo problema, resolvido com cada erro previsível. É daqui que saem os distratores.

Tabela de R

A linha destacada acompanha as unidades escolhidas acima. Todos os valores saem de R = 8,314462 Pa·m³·mol⁻¹·K⁻¹ dividido pelos fatores de conversão.

Três formas derivadas que a banca usa sem avisar

Se o enunciado dá T e P, ele quer PV = nRT, e não o 22,4 decorado.

Massa

PV = (m/M)·RT

Para achar a massa estocada num vaso.

tanque de 2 m³ de CO₂ a 10 atm e 25 °C → 36 kg

Densidade

ρ = PM/(RT)

Sobe com P, cai com T, e é proporcional a M na mesma T e P.

ar a 25 °C e 1 atm → 1,18 kg/m³

Volume molar

Vm = RT/P

Depende de T e P. 22,4 L/mol vale só a 0 °C e 1 atm.

25 °C e 1 atm → 24,5 L/mol (9% a mais)

Densidade relativa e segurança

Na mesma T e P, d = Mgás/Mar. Gás mais pesado que o ar se acumula junto ao piso, e mais leve sobe e se dispersa. É por isso que o detector de GLP fica perto do chão e o de gás natural, perto do teto.

Densidade em relação ao ar, a 25 °C e 1 atm

Mar = 28,96 g/mol · passe o cursor sobre uma barra

H₂S (d ≈ 1,2) é o caso perigoso: é tóxico em concentrações baixas e se acumula em fossos, poços e caixas de inspeção, justamente onde alguém desce para trabalhar.

04 · misturas e reações gasosas

Cada gás se comporta como se estivesse sozinho

Num gás ideal as moléculas não se enxergam, então cada componente exerce a pressão que teria sozinho no vaso (Dalton, pi = xiP) e ocuparia o volume proporcional à sua fração (Amagat, vi = xiV). Consequência prática: % em volume = % em mol, para gases ideais. Mas % em mol não é % em massa, e a diferença pode ser enorme.

Mistura

Estequiometria com volumes: a razão de volumes é a razão dos coeficientes

Na mesma T e P, volumes de gases reagem na proporção dos coeficientes (Gay-Lussac). Isso vale só entre gases, nas mesmas T e P: água líquida, carvão ou fuligem ficam fora da proporção. É a ferramenta de toda questão de combustão.

Combustão

05 · quando o gás não é ideal

Z é o placar do modelo

O modelo ideal tem três hipóteses: moléculas sem volume, sem atração e com choques elásticos. As duas primeiras falham quando as moléculas ficam próximas, ou seja, em pressão alta e perto da condensação. O fator de compressibilidade mede o tamanho da falha: Z = PV/(nRT) = Vm,real/Vm,ideal. Se Z = 1, o modelo acertou. Se não, Z diz para que lado errou e quanto.

Z = 1

Comportamento ideal: pressão baixa, temperatura alta. Todo gás tende a Z = 1 quando P → 0.

Z < 1

A atração domina. O gás ocupa menos volume que o previsto e exerce menos pressão. É o caso típico em pressões moderadas.

Z > 1

O volume próprio domina. As moléculas já estão encostadas e o que resta é repulsão. Em pressão muito alta, todo gás chega aqui.

Z em função da pressão

Onde o modelo falha: van der Waals contra Peng-Robinson

As curvas acima não são medidas, são calculadas por uma equação de estado. Duas equações diferentes não dão o mesmo Z, e a diferença cresce perto do ponto crítico. Escolha uma pressão e compare.

06 · equação de van der Waals

Duas correções, uma para cada hipótese que falha

van der Waals mantém a forma de PV = nRT e conserta as hipóteses 1 e 2. As unidades mostram onde cada termo entra: a em atm·L²·mol⁻² soma-se a uma pressão, e b em L·mol⁻¹ subtrai-se de um volume.

( P + a·n²/V² ) · ( V − n·b ) = n·R·T
a corrige a atração. Atraídas pelas vizinhas, as moléculas batem com menos força na parede. O termo a·n²/V² devolve essa pressão perdida. É ao quadrado porque a atração acontece entre pares de moléculas: dobrou a concentração, dobrou quem puxa e dobrou quem é puxado.
b corrige o volume. Cada mol ocupa um volume próprio b (o covolume). O espaço livre para o movimento é V − n·b. Na prova, isole P: P = nRT/(V − nb) − a·n²/V². É substituição direta. Calcular V exige resolver uma cúbica.

De onde vem cada atmosfera

O que a e b revelam sobre cada gás

Constantes de van der Waals e dados críticos de gases industriais. As duas colunas “de Tc, Pc” recalculam a e b pelas fórmulas da seção 07. Batem com a tabela porque é assim que a tabela foi feita.

a alto, Tc alta: atração forte torna o gás fácil de liquefazer. NH₃ e H₂O formam ligações de hidrogênio e têm os maiores valores de a. O H₂, com a atração mais fraca, só liquefaz abaixo de 33 K.
b acompanha o tamanho da molécula e varia pouco: de 0,027 a 0,043 L/mol na tabela, contra um fator de 22 em a. Quem separa os gases é a atração.

07 · ponto crítico e estados correspondentes

Acima de Tc, nenhuma pressão liquefaz

Abaixo da temperatura crítica, uma isoterma de van der Waals faz uma onda: a equação prevê três volumes para a mesma pressão. Na realidade o gás condensa a pressão constante, e a linha horizontal fica onde as duas áreas sombreadas são iguais (construção de Maxwell). Suba a temperatura e a onda encolhe até sumir num ponto de inflexão, que é o ponto crítico.

Isotermas de van der Waals

a e b a partir do ponto crítico

No ponto crítico, a isoterma tem derivada primeira e segunda nulas. As duas condições dão:

a = 27·R²·Tc²/(64·Pc)  ·  b = R·Tc/(8·Pc)

Onde van der Waals erra de propósito

As mesmas condições obrigam todo gás de van der Waals a ter Zc = PcVc/(RTc) = 3/8 = 0,375. Os gases reais ficam entre 0,23 e 0,31 (coluna Zc da tabela). Por isso a equação é pior justamente perto do ponto crítico, onde as correções mais importam.

Estados correspondentes: a equação sem a e sem b

Divida P, V e T pelos valores críticos. A equação de van der Waals vira (Pr + 3/Vr²)(3Vr − 1) = 8Tr, sem nenhuma constante do gás. Gases diferentes nas mesmas condições reduzidas têm o mesmo Z. É o princípio por trás das cartas generalizadas de Nelson-Obert, e ele sai de graça da equação.

Carta generalizada de Z (van der Waals reduzida)

Qual modelo usar na engenharia

O modelo certo é o mais simples que responde com a precisão necessária.

Gás ideal

Pressões baixas: gases de combustão, ar de processo, correntes atmosféricas. Seguro com Pr ≪ 1 ou Tr ≳ 2.

van der Waals

A primeira correção. Ótima para interpretar desvios e para questões de prova, mas fraca em números perto do ponto crítico.

Cúbicas modernas

Redlich-Kwong, Soave e Peng-Robinson, padrão nos simuladores. É a mesma ideia de atração mais covolume, com a dependência de T calibrada pelo fator acêntrico ω.

08 · exercícios de fixação

Catorze decisões e um gerador

A bateria A traz as questões da aula no formato ENADE, e a B, conceitos de resposta rápida. Cada alternativa errada tem um diagnóstico, que diz qual conta leva até ela. O gerador no fim cria exercícios novos com números sorteados, e os distratores saem das mesmas funções de erro da seção 03.

1 · Texto-base

Contexto industrial, longo de propósito. Separe os dados da história: o dado útil costuma estar no meio.

2 · Comando

Grife o que se pede e a unidade da resposta. Estime a ordem de grandeza antes de calcular: isso elimina duas alternativas de cara.

3 · Distratores

Cada alternativa errada é um erro previsível: °C, pressão manométrica, R trocado, termo esquecido.

acertos 0 de 0 respondidas · 14 no total

Bateria A · Seis questões no formato ENADE

Clapeyron e pressão manométrica, equação geral, asserção-razão, van der Waals, afirmativas e uma discursiva com padrão de resposta.

Bateria B · Conceitos em um minuto

Sem calculadora. Se precisar de mais de uma linha de conta, provavelmente está complicando.

Gerador de exercícios

Números novos a cada clique. As alternativas erradas são calculadas com o erro que cada uma representa, então o diagnóstico é sempre verdadeiro para aqueles números.

09 · para levar à prova

Checklist anti-pegadinha e formulário

Rode o checklist mentalmente antes de marcar a alternativa. Cada item é um distrator que apareceu nesta página.

Formulário da aula

Tudo o que foi usado aqui, num só lugar.

Três frases

Kelvin e pressão absoluta, sempre.

O R é escolhido pelas unidades, não pelo hábito.

a corrige a atração; b corrige o volume.

Refaça as seis questões sem olhar a resolução, e anote onde errou.

10 · para ir adiante

De onde vem tudo isto

As constantes de van der Waals e os dados críticos são os valores de tabela usuais. Os fatores acêntricos usados no Peng-Robinson vêm das tabelas de Smith, Van Ness e Abbott. Todas as curvas desta página são calculadas por equações de estado, e não medidas: servem para comparar modelos, não para substituir dado experimental.